HÉLIO ADÃO GREVEN
Arquiteto por formação - graduou-se em 1956 pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) -, sua experiência na área de construção civil enfatizou a construção industrializada, bem como sistemas e processos construtivos, além da utilização de novos materiais. Obteve grau de doutor pela Universidade de Hannover, na Alemanha, em 1969. Embora aposentado do cargo de professor-titular do Norie (Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação), ainda colabora para o programa de pós-graduação da instituição. Além disso, é diretor da KG Projetos e Consultoria.
Os processos consolidados na construção civil brasileira estão sendo observados com olhos críticos. O mercado está em busca intensa por possibilidades de melhoria, de redução de desperdício, de aumento de produtividade, de redução de custos. O momento da construção nacional indica que a racionalização e a industrialização são imperativas, mas o mercado esqueceu de considerar o óbvio, a coordenação modular. É sobre esse conceito que falou à Téchne Hélio Adão Greven, pesquisador do assunto que considera "de uma simplicidade constrangedora". Constrange porque sua aplicação não demanda investimentos nem capacitação, e ainda traz benefícios para a produtividade, a qualidade, os custos e a redução do desperdício. Basta integração da cadeia, o que não havia nem entre os Estados quando as primeiras manifestações pela coordenação iniciaram, há 50 anos, na Europa e mesmo no Brasil, que conta até com uma norma sobre o tema. Além dos motivos citados acima, Greven, consultor da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), revela que há intenções de o País intensificar as exportações de materiais. De acordo com ele, que traz a experiência de quem morou e estudou por dez anos na Alemanha, não há porque temer a implantação efetiva da coordenação modular. Ela não virá para engessar projetos arquitetônicos, mas para trazer um elemento a mais para a criação. Em menos de um semestre, garante, os conceitos podem ser completamente passados para os alunos de graduação de engenharia e arquitetura.
Em resumo, o que é a coordenação modular? Por que é tão importante?
Basicamente, é uma ordenação dos espaços na construção civil. Cada componente tem seu espaço pré-definido e tem que respeitar o espaço do componente vizinho. Se todos trabalharem com coordenação modular, passamos a trabalhos de montagem. Hoje é necessário cortar, serrar, emendar.
Por que não trabalhamos de maneira coordenada no Brasil?
Em 1950, o Brasil assinou o convênio internacional de coordenação modular decimétrica. Só que, naquele tempo, não havia meios de comunicação e de transporte eficientes entre os Estados. Como eram quase independentes comercialmente, cada um produzia o que queria para a região dele e não houve interesse em se comprometer com a coordenação modular. Hoje, o desconhecimento é total.
E por que o assunto vem à tona agora?
Estamos fazendo campanhas porque chegamos à conclusão de que não é aceitável quebrar e emendar. A pressão é para que todos construam dentro da norma para compatibilizar tudo sem problemas, com aumento de produtividade, redução de retrabalho e de desperdício. São conceitos óbvios. Tanto que nos países desenvolvidos não se fala mais de coordenação modular. Já está incorporado e não se consegue entender a falta de respeito à coordenação modular decimétrica.
A falta de coordenação impera no Brasil porque a mão-de-obra é barata e pode ficar cortando e emendando?
Não, porque não tem outra opção. Ninguém obedece à coordenação modular, que, por sinal, é lei. Hoje, existem forças nesse sentido e o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) poderia, teoricamente, atestar que determinado produto está fora da coordenação modular e aplicar multas. Claro que isso não acontecerá porque não existe fiscalização. Agora, queremos, a partir de divulgação, fazer chegar o conhecimento e o respeito à norma aos produtores.
E a receptividade dos fabricantes é boa?
Nunca vi ninguém dizer que é contra a coordenação modular, porque o bom senso indica que é óbvio.
E a convenção é decimétrica?
Pode ser a partir de qualquer medida, mas a convenção mundial é decimétrica. E é tão forte que a Inglaterra, criadora do sistema em pés e polegadas, passou a adotar a decimétrica, em 1964, porque não podia comprar ou vender componentes construtivos para o resto da Europa. Ao fazer isso, todas as ex-colônias, como Canadá, Austrália e África do Sul, passaram para o decimétrico.
Hoje o Mundo todo adota esse padrão?
Só sobraram os Estados Unidos, que adotam as quatro polegadas. Mas, notamos pela literatura técnica, estão pensando em passar para o decimétrico, pois ninguém compra nada deles porque não serve em outros sistemas. Um exemplo clássico, no Brasil, é a madeira compensada. Uma das medidas mais vendidas é a de 1,22 m x 2,44 m, que corresponde a 4 x 8 pés. Para que possamos exportar para os EUA - e somos grandes exportadores de madeira compensada -, temos que produzir nessas dimensões.
E, ao adotarmos a coordenação modular decimétrica no Brasil, essas exportações não serão prejudicadas?
Só para os EUA. Sendo consultor do Ministério de Indústria e Comércio e da Finep, posso afirmar que o Brasil quer ser exportador de materiais de construção.
E compensa prejudicar as exportações para os EUA?
Como somos mais próximos e há muitos anos fornecemos, ainda vamos continuar fornecendo para eles. Não é proibido produzir fora dos padrões, mas, para o mercado brasileiro, por força de lei, deve-se utilizar o módulo de 10 cm, com múltiplos e submúltiplos.
Pelo que o senhor disse, em breve os EUA também estarão trabalhando com o padrão decimétrico?
Há cinco anos, informavam apenas as dimensões em pé e polegada. Hoje, vejo em artigos e nos componentes, colocam em pés e polegadas e, entre parênteses, em metros e centímetros. Daqui a algum tempo, começam a colocar primeiro em centímetros e metros e, entre parênteses, em pés e polegadas, porque isso não se muda do dia para a noite. Além de ser cultural, não podem jogar o maquinário no lixo. Têm que esperar a substituição.
Então, a adequação é demorada?
A Alemanha, uma das maiores exportadoras do Mundo e a atual locomotiva da Europa, até a década de 1970 usava a coordenação modular octamétrica, que divide um metro em oito e tem módulo de 12,5 cm. Foram obrigados a adotar a decimétrica pelos mesmos motivos comerciais. E temos resquícios disso no Brasil. Alguns dos equipamentos alemães para produzir lajes de concreto protendidas, com 1,25 m, ainda hoje funcionam no Brasil. Então, todo esse encaminhamento da coordenação modular leva décadas.
No Brasil, existe alguma entidade que controle isso? Esse período de transição tende a ser mais complicado?
Há a NB-25, de 1950, ou NBR 5706 - Coordenação Modular da Construção, mas ninguém conhece. Vamos encontrar dificuldades para inserir cursos nas universidades e instituições técnicas. E não precisaremos de um ano ou semestre todo dos cursos. Basta meia dúzia de aulas, porque é muito simples e não atrapalha em nada. É só respeitar os 10 cm.
Nem a arquitetura?
Convivi, na Alemanha, com o início da coordenação modular lá. Em princípio, os arquitetos achavam que tudo ficaria igual, engessado. Chegaram à conclusão de que, ao contrário, libera o arquiteto para fazer o que quiser dentro das normas. Não teremos esse obstáculo no Brasil. Só precisamos de divulgação, cursos e controle dos órgãos responsáveis para que haja respeito, pois, no Brasil, lamentavelmente, existem muitas leis, mas não são cumpridas.
Trata-se mais de uma questão setorial do que da iniciativa de um construtor ou produtor? Ou seja, não adianta apenas um assumir essa padronização?
Esse é até um ponto crítico. De nada adianta um produtor mudar e os outros não, porque aí ele está errado. Existem órgãos, como os Sinduscons (Sindicatos da Indústria da Construção Civil), que podem forçar o uso de componentes coordenados modularmente para que os fornecedores se adaptem.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>